Não é só de batata e salsicha que vive a gastronomia alemã! Foi o que eu descobri durante minha passagem por Berlim. A encantadora cidade chama atenção pelas belíssimas construções, organização urbana, educação dos moradores e, principalmente, pela diversificada culinária. Restaurantes italianos, árabes, japoneses...
Mas as grandes estrelas locais são mesmo os vietnamitas! O tempero apimentado desses imigrantes que se mudaram para capital do país depois da Guerra do Vietnã, dá uma sabor a mais a essa incrível cidade.
Curtindo as festividades de natal em Ku'Damm, Berlim.
A lista dos melhores vietnamitas de Berlim é extensa mas eu, como sempre, não fui atrás de título. Optei por comer num aconchegante e autêntico restaurante vietnamita instalado em Charlottenburg. O bairro é famoso por conta da Kurfürstendamm, a charmosa avenida que abriga grandes marcas, carinhosamente chamada pelos moradores de Ku'Damm.
Descobrimos o lugar por acaso. Estávamos hospedados na região e, andando à toa, passamos na porta do CaoCao. Confesso: a decoração da fachada me conquistou. As tochas, a vitrine de vidro e as velas acessas em cima das belas mesas de madeira me fizeram entrar.
Tem como resistir à uma decoração tão linda?
Do outro lado do balcão uma linda imigrante vietnamita, falando um inglês meio enrolado, quase incompreensível. Dificuldade que rapidamente foi superada pela gentileza e educação da moça.
Detalhes que me fizeram perceber que ela, apesar de servir mesa e estar no balcão, era uma das donas do lugar. Estava, de fato, num tradicional restaurante familiar vietnamita de Berlim!
Decoração que, sem dúvida, faz a diferença! Muito romântico!
A alegria da descoberta só não foi maior que o sorriso que abrimos quando recebemos as bebidas. Dois copos gigantes de uma bela cerveja artesanal alemã, servidos na temperatura ideal e por, apenas, 7 euros. Preço que nos surpreendeu também durante a escolha das comidas.
Cerveja alemã da melhor qualidade!
O CaoCao tem um cardápio não muito extenso, do tamanho ideal da minha curiosidade! E com pratos bem explicados no idioma americano.
Parte do cardápio do CaoCao, em Berlim.
A essa altura, sentada confortavelmente ao lado do maridão, já nem estava mais achando difícil encarar um famoso prato apimentado (detesto pimenta). O complicado mesmo foi escolher o que comer. Tudo parecia ser tão saboroso. E era tão barato!
Passada a vontade de provar um pouquinho de cada receita, fizemos o pedido. Eu fui de lula com vegetais da estação e arroz (Muc Xao, 9.00 €) e o Thiago pediu a tradicional carne frita com macarrão de arroz, salada fresca, molho de peixe e amendoim crocante (Bun Bo, € 7,90).
Prato do Thiago: carne, macarrão de arroz e vegetais.
Em poucos minutos os pratos chegaram e eram tão grandes e saborosos quanto as cervejas!
Mas claro, nem tudo são flores. Como tenho uma aversão enorme à comidas apimentadas e não sou acostumada a comer esse tipo de refeição, quase passei mal. Fiquei vermelha. Suando como se tivesse numa sauna.
Minha escolha: arroz, lulas e legumes da estação! Perfeito!
Mas a cerveja rebateu bem a suadeira e, sem dúvida, valeu essa minha imersão nesse mundo asiático tão efervescente de Berlim! Um universo que começou a ganhar forma, a partir da década de 80, na então Alemanha Oriental.
Nessa época, os refugiados vietnamitas (e de várias outras localidades, como Turquia e Itália), entraram no país com um contrato de trabalho e a esperança de um futuro melhor. Vale lembrar que essa abertura de portas para os estrangeiros foi totalmente proposital.
A Alemanha já tinha passado por duas guerras mundiais e precisava de mão de obra (barata) para ajudar na reconstrução do país. Nada melhor que fechar acordo com os parceiros do então bloco comunista e receber os chamados "gastarbeiter", trabalhadores estrangeiros convidados.
Lá, inclusive, encontra-se o famoso Dong Xuan Center, um imenso shopping popular asiático comandado, em sua maioria, por ex-gastarbeiter vietnamitas. O lugar, que é uma réplica em miniatura do mercado de mesmo nome localizado em Hanói (capital do Vietnã), faz lembrar a 25 de Março, a famosa rua paulistana de comércio barato e caótico.
O famoso Don Xuan Center, em Lichtenberg, Berlim. Foto: Don Xuan Center Berlin / divulgação
Visita interessante pra quem está a fim de provar a autêntica comida de rua vietnamita. Nós, infelizmente, não fomos porque o tempo foi curto. Aliás, passaria o mês inteiro em Berlim! Uma semana só deu pra nos deixar com uma vontade gigantesca de voltar.
Veja como foi nossa passagem pela capital alemã:
O bairro de Lichtenberg, considerado por muitos como a "pequena Vietnã", é hoje uma das regiões comercialmente mais prósperas. Aliás, com a queda do muro, em 1989, e a reunificação da Alemanha, todo o leste de Berlim ganhou nova roupagem.
Estar no lado oriental agora é "cool". Mesmo porque, ali estão expostos (ainda que alguns deles aos pedaços) elementos importantes da história recente mundial. Vendo no mapa, destaco ainda dois bairros berlinenses do leste que também valem a visita: Mitte e Friedrichshain-Kreuzberg.
Pelo Google Maps dá pra ver o quanto é perto.
Em Mitte, coração da capital alemã, você pode visitar a belíssima cúpula do Parlamento Alemão, refletir durante a caminhada pelos estreitos corredores do cinzento Memorial do Holocausto e conhecer o imponente Portão de Brandeburgo, palco, nos anos 90, das comemorações pelo fim da Alemanha dividida.
Pensativa, conhecendo o memorial dedicado aos judeus mortos na Segunda Guerra Mundial.
Beijo da Morte, o grafite mais marcante do Muro de Berlim.
E hoje, ao transitar pela cidade, apesar da existência de um linha divisória imaginária, destacada, principalmente, pelos detalhes da arquitetura dos dois lados o "milagre" da unificação, de fato, ocorreu.
Os vietnamitas alemães, descendentes dos gastarbeiter, agora, são considerados habitantes importantes para o desenvolvimento do país. E essa preferência tem uma explicação bem plausível: o povo vietnamita é focado e disciplinado.
Estudantes vietnamitas são mais disciplinados que os alemães. Foto: Ebbighausen / Deutsche Welle
Tudo porque, pela tradição, os vietnamitas precisam tirar sempre boas notas e ajudar os pais nos estabelecimentos comerciais da família (o que explica a presença daquela bela jovem no balcão do CaoCao que, infelizmente, "fugiu" da foto).
A "boa ação" de abertura da fronteira no passado recente, portanto, sendo positivo para o país já que os vietnamitas são considerados os imigrantes mais esforçados e bem integrados da Alemanha. Sem falar que eles introduziram na alimentação do povo alemão a ideia da comida fresca e saudável.
Explicação sobre a culinária vietnamita em destaque no site do restaurante CaoCao, de Berlim.
Uma filosofia alimentar que nós, especialmente os comensais, só temos que agradecer e saborear!
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Sou mineira, jornalista e há 34 anos vivo o dia a dia da televisão. Mas foi na gastronomia que encontrei minha grande paixão. Desde 2011, quando me formei pelo Senac Minas, passei a colocar a mão na massa e a preparar a maior parte do que chega à minha mesa. Este blog nasceu para provar que comer bem não precisa ser caro, complicado ou sem graça — pelo contrário: pode (e deve!) ser simples, divertido e essencial. Aqui, quero despertar em você o prazer da descoberta, transformar curiosidade em tempero e rotina em experiência. Seja muito bem-vindo à minha Vida de Cozinheiro. Entre, fique à vontade e sinta-se em casa!
Salsicha com mostarda! Essa é uma das melhores lembranças que tenho da capital austríaca . Claro que Viena não é só isso. A cidade é lindíss...
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